sexta-feira, 19 de junho de 2015

Hora de Voltar

Caros leitores "Agathachristianos",

Depois de um longo período ausente, é com grande prazer e alegria que informo a retomada das publicações no rainhadocrime.blogspot.com.br.
Durante este período acompanhei diversas matérias publicadas referente à nossa Rainha do Crime, Agatha Christie, que certamente contribuirão em muito para nossa retomada.

Conto com a colaboração e participação de todos!
Sejam bem vindos novamente!

Abraço Forte
Thiago Medeiros

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Agatha Christie por Zeca Camargo



Zaca Camargo - Apresentador
Surpresa é, quando se fala de Agatha Christie, um elemento fundamental. Quando você avança para seu terceiro ou quarto livro – nunca conheci alguém que tenha lido apenas um -, já está praticamente acostumado com a ideia de que vai ser surpreendido pela engenhosidade do criminoso revelado nas páginas finais. Motivos, álibis, armas – isso toda história policial tem. Mas as de Agatha Christie ainda tem algo mais: esse elemento surpresa que, quando finalmente é apresentado, você tem vontade de largar o livro e dizer: “não é possível!”.

Foi assim desde o primeiro que eu li. Me lembro de estar na sexta série quando a professora me pegou lendo o livro na aula, bem como a lembrança do susto e da bronca que eu levei neste dia, eu tinha 11 anos. O livro era “O misterioso caso de Styles”


A bronca da professora não é, porém, a única lembrança. Me lembro também do prazer de desvendar (por tabela) aquele crime, da impecável atmosfera inglesa que todos os capítulos evocavam (mesmo quando o protagonista era um certo detetivezinho inegavelmente belga!), da minha incapacidade de parar de ler – e sobretudo do frisson de pensar que eu estava lendo um “livro de adulto”… Sim, porque Agatha Christie, entre tantos méritos, ainda é a responsável por iniciar milhões de crianças e pré-adolescentes no mundo que, se não é exatamente o da literatura, pelo menos é um que certamente não se encaixa muito bem na definição de “livro infanto-juvenil”.

Com raras exceções, todos os personagens criados pela autora são adultos, circulam no mundo dos adultos, falam como adultos – e, claro, cometem crimes de adultos. Ao mesmo tempo, o magnetismo de sua narrativa não é dirigido exclusivamente aos adultos. Basta gostar de acompanhar uma história bem contada – e pronto! Quando você vê, já está no capítulo 17…

Livro - Capa
“Styles”, mesmo com toda essa carga de lembranças que evoca, não é meu livro favorito da autora. A surpresa no seu final é boa, mas aos poucos fui conhecendo outras ainda mais geniais que ela tinha elaborado. Vinha de qualquer aspecto da história: o motivo do crime (um noivado rompido na adolescência); o álibi do assassino (pensou em “O caso dos dez negrinhos”?); a banalidade de algumas mortes (“Tragédia em três atos”, talvez?); as maneiras de despistar a investigação (“Morte na praia” é exemplar nisso); a escolha do cenário para um homicídio (“Assassinato no campo de golfe”, “Um corpo na biblioteca” – entre tantos); na simples expectativa de um crime (“Convite para um homicídio”, lembra?); a maneira de encaixar a narrativa numa referência já conhecida (“Os doze trabalhos de Hércules” ou “Os cinco porquinhos”); ou mesmo o conjunto da obra (nem preciso comentar a monumentalidade de “Assassinato no expresso do oriente”, preciso?).

Já tendo passado por todos os títulos acima, eu já era um leitor acostumado a esse tratamento – a tramas que não apenas estimulam seu poder de dedução, mas também respeitam sua inteligência. Quando então me deparei com esse meu título favorito... Então lá vai: o melhor livro da autora, na minha opinião, é “O assassinato de Roger Ackroyd”.


Quem já o leu, sabe que agora estou diante de um problema: não posso comentar nada do livro, senão vai estragar essa que é das maiores surpresas que a autora já preparou. Não se trata de um simples “spoiler”, tipo: Hercule Poirot se associa ao doutor Sheepard para desvendar um mistério. Dizer porque eu gosto tanto de “Roger Ackroyd” seria não um mero estraga-prazeres, mas um insulto à própria memória de AgathaChristie. É um dos seus primeiros livros – é de 1926, enquanto que seu romance de estreia, que foi também minha iniciação no mundo “agathachristiniano”, “O misterioso caso de Styles”, é de 1920. Mesmo assim, acho que nada que ela escreveu depois – apesar de a lista conter alguns clássicos da autora – é tão eficiente no quesito surpresa.




Porém, ninguém lê Agatha Christie simplesmente em função da surpresa. Seu talento em nos cativar vai além disso, ou você acha que Gilberto Braga empresta de quem quando, ao escrever as cenas da morte da Taís, em “Paraíso tropical”, coloca um motivo para assassiná-la na boca de cada personagem principal da novela?

Mesmo em seus romances policiais mais fracos (e por mais fraco quero dizer aqueles que têm soluções fáceis demais, ou que não se aprofunda demais nos personagens – porque, oficialmente, para um fã como eu não existe nada realmente fraco que ela tenha escrito), a isca é colocada logo de início, e é quase impossível que um leitor abandone a história depois de tê-la mordido. A fórmula não foi inventada por ela – mas ninguém a aproximou tanto da perfeição como Agatha Christie. Ao reler um de seus trabalhos, tive a prova final disso.

Escolhi “É fácil matar” quase que por acaso. Entrei numa boa livraria, no Rio, e fui ver o que eles tinham da autora na prateleira. Muito pouco, para a minha decepção – “Roger Ackroyd”, por exemplo, está em falta. Com a escolha reduzida, fiquei entre dois dos títulos cuja história eu me lembrava muito pouco: “Por que não perguntaram a Evans?” e “É fácil matar”. Mesmo lendo a sinopse na contracapa da cada dos dois, tinha a impressão de nunca tê-los lido – o que era impossível, já que passei por 66 títulos da coleção na minha adolescência (meu pai às vezes se esquecia e me trazia um repetido, da elegante edição dos anos 70 da Nova Fronteira, que eu discretamente ia trocar no dia seguinte na livraria Mestre Jou, na rua Augusta… só uma pequena reminiscência, se me permite). De “Evans”, porém, eu me lembrava da cena do assassinato (que dá o nome à obra), e assim fiquei com o outro título.

A frase, tão simples e tão boa, é de uma certa Miss Fullerton – que morre logo depois de dizê-la a um ex-policial aposentado durante uma viagem de trem a Londres. Sem o brilho de Poirot nem a intuição fantástica de Miss Marple, “É fácil matar” é construído sobre um motivo mais que sórdido para uma série de crimes – que, como sempre, só é revelado no final. Durante toda a leitura, não havia jeito de eu me lembrar o que estava por trás daquelas mortes aparentemente acidentais – e, talvez por isso, foi tão bom ter escolhido este livro para reler e me preparar para este texto.

Apesar de ser um romance menor da autora, “É fácil matar” me fez passar por todos aqueles estágios que se experimenta com um livro de Agatha Christie: apresentação do crime, descrição dos suspeitos, construção dos possíveis motivos, checada nos álibis, culpado mais provável… tudo no caminho para que você chegue à conclusão antes de quem está investigando tudo no livro. Só que a conclusão que você chega é, invariavelmente errada. No caso desse livro, descobri o que motivava os crimes com certa antecedência – mas chutei feio quanto ao culpado, e errei. Só não fiquei decepcionado porque esse é o jogo mais delicioso de se entregar: brincar de quem é mais esperto com ninguém menos do que aquela que o livro “Guinness” dos recordes diz que é a autora que mais vendeu livros em todos os tempos.

Entusiasmado com esse recomeço, peguei, também ao acaso numa prateleira esquecida na minha casa, “Nêmesis”. Também me lembrava pouco desse ótimo enredo (um conhecido de Miss Marple, propõe, depois da sua morte, que a “velhinha bisbilhoteira” desfaça uma injustiça do passado), comecei a relê-lo displicentemente e, pronto! Estou novamente “viciado” em Agatha Christie… Isso quando a pilha de livros de outros autores que eu tenho vontade de ler só aumenta…


Autores “da moda”, clássicos brasileiros, literatura contemporânea, outras histórias tristes que eu gosto tanto – tudo isso pode esperar, pois agora eu tenho uns crimes para resolver…

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O Velho e o Novo Poirot... será que vai dar certo?

Por muitas vezes você pode ter se perguntado:
Como nasceu Poirot?

Bebê Poirot
Nos primeiros anos da década de 1910, uma jovem enfermeira inglesa encontrou um ônibus com refugiados belgas. Uma figura em especial chamou sua atenção: um homenzinho com a cabeça em formato de ovo e um bigodinho. Ficou fascinada por ele sem saber que, um dia, o mesmo aconteceria com gerações de leitores. A moça chamava-se Agatha Christie (1890-1976), e naquele dia ela encontrava a inspiração para criar um de seus mais famosos detetives, Hercule Poirot.

Em parte por conta de um desafio lançado pela irmã, Agatha começou a escrever O Misterioso Caso de Styles, romance de estreia de ambos. Outros detetives surgiriam – Miss Marple, Tommy e Tuppence – mas nenhum seria tão fortemente associado à Dama do Crime. Ex-policial, o detetive particular belga tem como características o peculiar bigode e o uso consistente das “pequenas células cinzentas”. É um homem baixinho, o que compensa com um grande ego. Sua aparência quase excêntrica é reforçada a todo momento, assim como o incômodo que sente ao ser confundido com um francês.
A relação dos dois se estendeu por 33 romances, uma peça e mais de 50 contos. Em língua inglesa, Agatha só perde em número de vendas para Shakespeare e, nos próximos meses, a L&PM relançará 30 de seus títulos, incluindo um que ela escreveu sob o pseudônimo Mary Westmacott.

A morte de Poirot (planejada pela autora desde os anos 1940), só aconteceria em 1975, em Cai o Pano. Tão grande foi a comoção, que o personagem ficcional ganhou um obituário no New York Times.

Quase 40 anos depois, Poirot protagonizará um novo romance, desta vez escrito pela também britânica Sophie Hannah. A poeta é autora de seis novelas policiais psicológicas publicadas em 27 países (três das quais sairão no País pela Rocco). Nesta semana, a autora entregou sua novela, prevista para setembro lá fora, e deu detalhes sobre como tomou para si o universo da Rainhado Crime – um projeto que tem apoio da família de Agatha.

“Nos meus livros, como nos de Christie, a trama é um componente importante, e as perguntas, os interrogatórios, estão ali, mas não pretendo introduzir uma maior profundidade psicológica aos protagonistas”, afirmou a escritora à agência de notícias EFE. Aos 13 anos, foi um livro da Dama que a inspirou a dedicar-se ao gênero.

Hannah diz que fez o possível para manter intacta a essência das obras, e que o novo livro se passará em 1929, escolha que se justifica porque, entre 1928 e 1932, Agatha não criou nenhuma história para o belga.

É preciso cautela para julgar uma obra que nem sequer foi lançada, mas uma decisão pode ser especialmente polêmica: neste livro, não encontraremos o capitão Hastings, melhor amigo e contraponto ficcional à personalidade de Poirot. No lugar, estará um novato da Scotland Yard. A escritora garante que ele conhece bem o detetive particular, o que lhe permitiu “dar um enfoque orgânico”. É verdade que o assistente não está em todas as histórias de Agatha (aparece especialmente nos contos e em menos de uma dezena de romances), mas adaptações dos textos o tornaram famoso. Numa comparação simplista, seria como ter Sherlock sem o dr. Watson.

Mesmo sem revelar detalhes da trama, Hannah disse que criou um caso diferente daqueles que Poirot está habituado a resolver. Assim, espera mostrar novos aspectos de sua personalidade “compatíveis com os escritos por Agatha”. Ela admite que tomar para si um personagem tão bem definido tem seu peso, mas diz que a pressão não é diferente da que sente quando escreve suas próprias obras.

 

Um mistério a ser desvendado é se a autora continuará escrevendo para Poirot no futuro. “Não depende de mim o número de romances que farei, e não sei se a família e os leitores vão querer que eu continue.”




Fonte: www.estadao.com.br/noticias/arte-e-lazer,sophie-hannah-da-detalhes-sobre-recriacao-de-obra-de-agatha-christie,1127929,0.htm 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Poirot e Eu por David Suchet

Poirot and Me
Poirot and Me - Capa
Há mais de 24 anos interpretando o detetive belga Hercule Poirot, David Suchet decidiu compartilhar com os fãs suas experiências e lembranças sobre a produção da série Poirot.

No dia 7 de novembro ficou disponível  para donwload o ebook  “Poirot and Me”, publicado pela Headline e oferecido pelo Amazon. O livro traz curiosidades sobre a produção e atores convidados, entre elas, a forma como Suchet foi selecionado para interpretar o personagem, com o apoio da filha de Agatha Christie. Determinado a oferecer a interpretação mais autêntica de Poirot até o momento, ele enfrentou alguns obstáculos ao discutir com diretores e produtores a forma como o personagem deveria ser construído.

Segundo Suchet, em 1988, durante as filmagens do episódio “The Adventure of the Clapham Cook”, da primeira temporada da série, o diretor Ed Bennett criticou a forma melindrosa como Suchet retratou a mania de Poirot por higiene. Na cena, ele tirou seu lenço do bolso e limpou o banco antes de sentar-se. Bennett considerou a ação ridícula. Defendendo seu ponto de vista sobre o comportamento do personagem, Suchet bateu o pé e se negou a mudar a cena. A discussão chegou ao ponto da equipe chamar o produtor Brian Eastman para que ele apartasse a briga.

Criada na década de 1980 com o objetivo de adaptar toda a obra de Christie estrelada pelo detetive, a série encerrou sua trajetória no último dia 13 de novembro, quando foi ao ar na Inglaterra o telefilme  “Curtain: Poirot’s Last Case”. Antes disso, no dia 6 de novembro, o canal ITV apresentou o telefilme “The Labors of Hercules”. No Brasil, a série é exibida pelo Film&Arts.


Suchet ainda sonha em voltar a interpretar Poirot. Ele espera que, no futuro, sejam produzidos remakes cinematográfico de algumas das histórias retratadas na série. A favorita dele é “The ABC Murders”, exibida na TV em 1992.


Com o final da série, a editora HarperCollins anunciou a publicação de uma nova aventura de Poirot, escrita por Sophie Hannah, a ser publicada em setembro de 2014, com o apoio dos herdeiros de Christie. Embora a autora pretenda seguir o estilo narrativo da escritora, Suchet não tem interesse de estrelar qualquer adaptação que não seja um original de Christie.

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/temporadas/tag/poirot/

sábado, 2 de novembro de 2013

O Medo de Agatha Christie

Em sua autobiografia (que é um dos seus melhores livros, se não o melhor de todos) Agatha Christie discute de vez em quando alguns temas ligados à literatura policial, entre eles o do medo. Embora seja mais famosa por seus romances detetivescos, como os de Hercule Poirot e Miss Marple, ela escreveu também romances e obras de suspense,  dos quais o mais famoso, sem dúvida alguma, é “O Caso dos Dez Negrinhos”.

O que há de mais interessante na saudosa Rainha do Crime é que era uma mulher inteligente, intuitiva, perspicaz, mas sem muita sofisticação conceitual. Vendo-a discutir literatura, história da Inglaterra ou a vida de uma dona-de-casa, estamos diante de alguém que pensa com sutileza e originalidade, mas em momento algum transforma isto em linguajar "pseudofilosofante".

Ela relata que, na infância, uma das coisas que mais lhe causavam medo era a brincadeira da “irmã mais velha”, uma irmã fictícia, que ela imaginava ser louca e moradora de uma gruta, além de ser sósia de sua irmã mais velha, Madge.

A brincadeira consistia em Madge mudar de voz no meio de uma conversa qualquer, e dizer:

_Agatha, você sabe quem eu sou, não é?  Sou Madge. Você não está pensando que eu sou outra pessoa, não é?

A mudança na voz... a mudança no olhar... alguns pequenos gestos... e isto bastava para que Agatha, com cinco anos, tivesse certeza de que não era Madge que estava ali, mas “A Irmã Mais Velha”... Consequentemente a futura e destemida Rainha do Crime, saía correndo, aos gritos.
Depois, comentava ela:

_Por que gostava tanto da sensação do medo? ... Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? ... Será que é necessária à vida humana a sensação de perigo? ... Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? ... Se tirássemos o lobo da história de Chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história? ...

O medo pode vir dessa capacidade de estranhamento, de distanciamento, de olhar algo que nos é familiar e ver naquilo uma presença ameaçadora. Este processo mental é o reverso de outro que busca nos apaziguar, transformar o estranho ou ameaçador no familiar, no que está sob o controle da consciência.


Agatha relata também a história divertida de um de seus netos, Matthew, que certa vez ela viu, aos dois anos de idade, descendo uma escada sozinho. Com medo de rolar pelos degraus, ele se agarrava à balaustrada, descia um degrau de cada vez, murmurando baixinho:

_Este é Matthew... ele está descendo a escada...

É uma ilustração nota-dez do nosso processo de racionalização, de “olhar de fora” algo arriscado para assumir um mínimo de controle sobre o que ocorre. E ela diz que todas as vezes que precisava participar de eventos públicos, apesar de sua timidez, murmurava para si mesma:

_Esta é Agatha... ela é uma escritora famosa... vai dar uma palestra...

E isto a tranquilizava...


"Um dos nossos maiores medos é o medo daquilo que nossa mente não consegue dominar"

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Inimigo Imaginário de Agatha Christie

Toda criança tem um amigo imaginário; vai ver que todas têm também um inimigo imaginário. Agatha Christie conta em suas memórias que um dos seus pesadelos mais constantes durante a infância envolvia um personagem que ela chamava "O Homem do Fuzil".

Era uma espécie de soldado francês, com chapéu de tricórnio e um mosquetão antiquado ao ombro. Aparecia nos momentos mais inesperados: quando a família estava reunida para o chá, ou quando as crianças brincavam no jardim. De repente, a pequena Agatha começava a sentir uma inquietação crescente. Olhava em volta, e acabava vendo-o sentado à mesa, ou caminhando na direção delas, na praia. Ele se aproximava, com os olhos fixos nela, e eram olhos de um azul muito pálido. Ela acordava gritando; “O Homem do Fuzil! O Homem do Fuzil!” Ela não temia que o homem disparasse o fuzil, que era apenas uma parte de sua indumentária, como o chapéu ou as botas. Era a simples presença dele, e seu olhar cruel, que a amedrontava.

Com o passar dos anos, o pesadelo foi se sofisticando, e o Homem do Fuzil passou a fazer aparições mais sutis. Diz ela: “Algumas vezes estávamos sentados ao redor de uma mesa de chá, eu olhava para um amigo ou para um membro da minha família e, de repente, tinha consciência de que não era Dorothy, ou Phyllis, ou Monty, ou minha mãe, ou qualquer outra pessoa. Nesse rosto familiar, os pálidos olhos azuis encontravam-se com os meus. Era "o Homem do Fuzil.”


 É um pesadelo notável para uma garota de cinco anos, mas é mais notável ainda quando refletimos em quem essa garota se tornou. Agatha Christie está entre os autores que melhor exploraram um tipo de história que os analistas do romance policial chamam de “cozy mystery” (“mistério aconchegante”), ou de “country house murders”. São histórias geralmente ambientadas numa casa de campo (ou mais raramente casa de praia) onde um grupo de pessoas amigas se reúne para passar um feriado ou final de semana, e ali, no meio daquele ambiente tranqüilo, acaba acontecendo um assassinato.


Agatha Christie


O “cozy mystery” é tipicamente a descrição de como a harmonia num círculo de pessoas amigas, ou numa família, é rompida subitamente por um crime brutal. Segue-se uma investigação, no curso da qual o detetive, geralmente Hercule Poirot, começa a desvendar segredos, conflitos, ódios reprimidos, ressentimentos acumulados, e começa a perceber que todo mundo ali poderia ter motivo para matar a vítima. Ele vai reunindo as pistas, confrontando os depoimentos, e o livro culminam com uma sessão em que todos os suspeitos são reunidos numa sala, com a presença da polícia. Ali, Poirot faz uma reconstituição de como o crime foi cometido, elimina de um em um os suspeitos, até que o funil vai-se estreitando, e ele aponta o verdadeiro criminoso. Porque mesmo num ambiente de aparente harmonia um parente nosso, ou um amigo da família, de quem menos se suspeitava, pode ser "O Homem do Fuzil".

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aloha! Agatha Christie também foi Surfista

Você aí, que acha que Agatha Christie já nasceu com aquele seu  jeito de vovó, prepare-se para mudar seus conceitos em relação à Rainha do Crime. Em fevereiro de 1922, ela e o marido, Archie (Archibald Christie), partiram para uma volta ao mundo que duraria dez meses. Entre outras aventuras, o casal surfou na África e em Honolulu. Ou melhor, em Honolulu eles tentaram, como a própria escritora contou em sua Autobiografia (publicada em 1979 no Brasil pela Nova Fronteira).


“Nossa viagem foi lenta, parando em Fidji e em outras ilhas antes de chegarmos. Achamos Honolulu muito mais sofisticado do que pensáramos, com muitos hotéis, estradas e automóveis. Chegamos cedo, pela manhã, fomos para nosso quarto do hotel e, imediatamente, vendo pela janela gente a fazer surf, correndo para a praia, alugamos pranchas e mergulhamos no mar. Éramos, claro, totalmente ingênuos. Estava um dia ruim para fazer surf – um desses dias em que só os peritos vão para o mar; mas nós, que havíamos feito surf na África do Sul, acreditávamos que surf para nós, já não era mistério algum. Acontece que em Honolulu era diferente. A prancha, por exemplo, era um grande pedaço de madeira, quase que pesado demais para que o pudéssemos erguer. Deitamo-nos em cima dela e nadamos vagarosamente até os recifes, a uma milha de distância – pelo menos foi o que me pareceu. Aí, colocamo-nos na devida posição e esperamos por uma dessas ondas que nos atiram pelo mar a fora até a praia. Não é tão fácil quanto parece. Primeiro, temos que reconhecer a espécie de onda própria para isso e depois, ainda mais importante, temos que reconhecer a onda que não serve, porque se somos apanhados por uma daquelas que nos arrasta para o fundo só Deus nos poderá ajudar! Eu não era uma nadadora tão experiente quanto Archie, de modo que demorei mais tempo a atingir os recifes. Por essa altura já perdera Archie de vista; presumi que estivesse flutuando em direção à praia, negligentemente, como os outros estavam fazendo. De modo que me coloquei apropriadamente em cima da minha prancha e esperei pela onda. Ela veio. Era da espécie imprópria. Num abrir e fechar de olhos eu e minha prancha fomos atiradas para milhas uma da outra. Primeiro, a onda, depois de me arrastar violentamente para o fundo do mar, sacolejou-me muito. Quando atingi a superfície, sem respiração e tendo engolido enormes quantidades de água salgada, avistei minha prancha, flutuando a meia milha de mim, em direção à praia. Nadei laboriosamente atrás dela. Foi recuperada para mim por um jovem norte-americano que me cumprimentou com as seguintes palavras: `Escute, irmã, se eu fosse você, hoje não faria surf. Você está arriscando demais. Tome a prancha e nade direitinho para a praia.´ Segui imediatamente seu conselho.”

_________________________________________

_________________________________________

Mais uma faceta da Rainha do Crime - Surfista